Luis Rego

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O luto de Wimbledon.

The Championships 2019. Held at The All England Lawn Tennis Club, Wimbledon.  Credit: AELTC/Thomas Lovelock.

Não há volta a dar. Estou destroçado. Pior do que eu só a Mirka e o Roger, tenho a certeza. Quem me conhece bem sabe o quanto gosto de ténis. Fui um jogador satisfaz menos, mas sou hoje um adepto satisfaz mais. Percebo o jogo, os jogadores, os perfis, as estratégias, as tácticas, os treinadores, os treinos, as superfícies, os torneios, as bolas, as condições, o público e a história da modalidade. Sim, estou num ponto bastante avançado da compreensão do jogo em si. E ontem foi um dia muito difícil para nós os 3. Federer fez mais pontos, mais pontos ganhantes e mais jogos. Tudo em condições normais apontaria para a sua vitória. Mas no fim, ganhou o Djokovic porque simplesmente ganhou os pontos mais importantes. Nomeadamente um deles, um que é quase aristocrata. Joga-se como quase todos os outros pontos, para ganhar! Mas este pontinho é o rei e chama-se match point. É ele que encerra aquela contenda, que sabemos quando começa, mas não sabemos quando acaba.

Na minha opinião, sofrida, amargurada e destroçada, após ver todos os detalhes de um jogo de 5 horas, é que o Roger não jogou bem os 2 match points que teve. Não os tratou com a deferência que talvez eles merecessem. Compreendo o estilo de jogo. Roger serve rápido, espera pouco entre pontos, às vezes faz um segundo serviço que na verdade é um primeiro, ou faz um segundo, depois de meter 8 primeiros e sobe à rede. É desesperante, estonteante e incalculável. Daí a facilidade que tem em ganhar os seus jogos de serviço, sem ter o serviço mais potente do circuito, talvez tenha o melhor, conjugado, obviamente com a forma como depois joga os pontos. Mas naquele preciso instante, e sei que agora é fácil falar, pois ontem também só queria que ele ganhasse um mísero ponto daqueles dois no seu serviço, devia ter parado tudo. Como os meus filhos dizem “pára jogos!”, depois devia ter respirado bem fundo e dizer para si: já consigo cheirar a nona daqui de onde estou, voltar a respirar fundo e servir com todas as ganas deste e do outro mundo. Tenho também quase a certeza que quando subiu à rede no segundo match point ia com a confiança que iria matar o ponto, como o fez tantas e tantas vezes naquela tarde. Para aí 90% das vezes. Até a estatística estava a favor. A única coisa que não estava a favor era o Novak. Impiedoso, mas acima de tudo corajoso, muito corajoso. Se foi uma asneira de Roger a forma como jogou pelo menos um dos match points, para Novak foi heróico a forma como os salva. E o resto é a história do dia em que Federer voltou a ser o melhor em campo e perdeu.
Há uma coisa que ensinaram desde o primeiro dia que entrei num court: no fim de uma grande vitória ou derrota juntas o que sobra de ti, sobes à rede, cumprimentas o adversário e dizes que fez um bom jogo, arrumas a raqueta e vais para casa chorar. Parabéns Novak Djokovic campeão de Wimbledon 2019.

Novak Djokovic (SRB) celebrates as he wins against Roger Federer (SUI) in the final of the Gentlemen’s Singles on Centre Court. The Championships 2019. Held at The All England Lawn Tennis Club, Wimbledon. Day 13 Sunday 14/07/2019. Credit: AELTC/Ben Solomon

O Bracinho de Carlos Tomé

Numa visita recente que fiz à Nova Gráfica tropecei neste livro que tinham acabado de imprimir, O Bracinho, de Carlos Tomé, que será lançado no dia 26 de Março, pelas 18h30 no Teatro Micaelense. Mais que seduzido pelo título, resultante de uma certa ideia de cultura popular que existe na ilha de São Miguel no que diz respeito às alcunhas que atribuímos às pessoas, resultado de uma aperência particular ou mesmo de uma deficiência. Eu tive um amigo que era o Pescoço, outro que era o Cabeleira, o Escova, o Marreta. Enfim, como tal mordi logo o isco, como se fosse eu caça grossa, mal sabe o Carlos que tenho pouco mais que 50 quilos. Só parei quando cheguei à última palavra, da última linha, do último capítulo do livro. Impressionado, claro. Muito impressionado.
Agora que a poeira já assentou e já tomei um banho, consigo explicar um primeiro ponto:
– A história do Bracinho podia acontecer em qualquer lugar do mundo. Mas acontece no Açores. As grandes histórias que li de grandes autores passam-se naturalmente longe daqui. Por exemplo, a Pomba, que é uma excelente ensaio ficcional sobre ansiedade, passa-se em Paris. Eu bem sei que sempre terei Paris, mas também sei que não é minha. Os Açores são. O texto ganha uma força emocional impossível de conter. Eu conheço a paisagem, a geografia, as camionetas, o Senhor Santo Cristo dos Milagres e a suas mil e uma facetas, conheço a cultura, a linguística, a tradição, que não é uma tradução. Entra direto do Carlos para mim, sem intermediários, sem necessidade de explicações, sem ruído, apenas se ouve o som que o Milhafre faz quando rasga os ceús. E que porte tem ele.
Penso que pesam muito dois factores na escrita do Carlos, o jornalismo, o atalhar a direito, e a maturidade que resultam num arranque de livro impressioanante. Daqueles que sabemos que quando se pega, só não se sabe como se vai largar da mão. E claro a história lá continua cheia de ritmo, dinâmica e pulso. O Carlos não tem necessidade de ter graça, não procura ter, porque a tem naturalmente. A Carlos sabe dosear a expressões e coloquialismos na dose certa para não ser espampanante ou exibicionista, mas também para não ser omisso na ideia de existência de uma cultura linguística em São Miguel e Açores e que acredito mesmo existir.
O Carlos é despojado. Está ao serviço da história, e que serviço nos presta, ao longo das 155 páginas, que podiam ser 300, mas acredito valerem muito mais como 155, num texto uno, dinâmico, com pormenores deliciosos, como um à volta das unhas da mão, ou um outro em que se fala de um suposto diário onde simplesmente se escreveria: Nada de novo a dizer. Um piscar de olho a um grande autor, Kafka, que tem várias entradas destas no seu diário, muitas delas espaçadas por meses. É assim a vida de um autor quando é a história que o escolhe. Temos que ter paciência e saber esperar, que é coisa que não vou saber fazer relativamente ao próximo livro do Carlos Tomé.

A História é uma coisa muito chata.

Obriga-nos a conhecer factos, eventos ou efemérides que aconteceram antes de a gente nascer. E o que é que interessa o que aconteceu antes de a gente nascer? Nada. Absolutamente nada.

 

 

 

 

 

 

Mas a Betty arrasa com tudo e todos.

Isso é ele.

 

Esta é a nova página do famoso autor… de várias multas de estacionamento e que  atingiu finalmente o pico da carreira. Depois a camioneta desce até à cidade de Ponta Delgada, largando aí os passageiros.  Para comemorar a efeméride, vou oferecer dois exemplares dos meus dois livros a quem adivinhar, em primeiro lugar, o local onde me encontro nesta fotografia. Tenho a esperança que alguém acerte.

Os meus livros

 

Estala a Grande Guerra na Fajã de Cima

Para o Diabo não haviam dúvidas. Aquilo era alemão, assim soprado ao de longe da cidade, do lado de baixo do Equador Carneiro, no meio da madrugada, altura em que antes acordava para ir beber 6 marrecas seguidas ao Carneiro. Agora que deixou a bebida, aparentemente acorda para ouvir falar alemão ao longe, cães a latir, vacas a mugir, e gente a cortar relva desde muito cedo. Ainda se o que ouvisse fosse cubano… É que Cuba, desde a visita póstuma do Fidel Castro, tinha-se tornando numa plataforma giratória de catapultar cubanos para os Açores, nomeadamente para a Fajã de Cima. Era uma catapulta gigante, emprestada dos livros do Astérix e Obélix, só que em vez de catapultarem romanos, catapultavam cubanos. Uns vieram com maracas nas mãos, outras de saia rodada. Catapultaram chicharrónes, fufú de plátano, como se não existissem bananas suficientes na Fajã de Cima, e ainda catapultaram um Chevrolet Bel-Air de 1957, com jantes de baixo perfil.

História ficcionada a partir deste artigo do Jornal Expresso. Esta história não faz parte do livro a Fajã de Cima, ou como a bota de cano se tornou mais atraente que o salto alto, mas podia perfeitamente fazer. É um bónus.

Descubra o livro aqui.

 

Coimbra, 5 de Abril, 1943.

“A imaginação nutre-se do real. Não se inventa nada. A Mariana do Amor de Perdição, a maior figura de Camilo, era possivelmente vizinha do grande homem. Mas o génio criador distendeu-lhe as virtudes naturais. E o doméstico e apagado caso particular passou a irradiar uma luz universal.

Os problemas morais que se levantam em arte só podem ter soluções negativas. É impossível impor a um artista qualquer coisa de comparável ao segredo profissional.

De resto, em coisas de uma natureza tão subtil, seria bom precisar que espécie de atentado há quando um artista parte da aparência temporal do modelo para evidência intemporal da criação. Verificar de que maneira ecoam na sinfonia elaborada os chocalhos do rebanho, é como pólen que a brisa tira de uma flor. Parece um roubo, e vai ser um milagre.”

De Miguel Torga, a quem prefiro chamar carinhosamente Adolfo, seu nome próprio. Um dos textos mais esclarecido e, ao mesmo tempo, poético que já li sobre criatividade.A realidade pura e dura embrulhada com um laço em cetim. Obrigado Adolfo.

 

 

A Rainha do Corvo

De todas as ilhas dos Açores que são especiais, o Corvo é a mais especial. Corvo negro, furtivo, sombrio, o símbolo da cidade de Lisboa. Mas por simpatia, por galhardia corvina, só. Porque Corvo, Corvo há só um. O CORVO! E nada está melhor para o Corvo do que o Corvo. O Corvo podia ser um sanatório ou uma prisão. Bom, antigamente, nascer na prisão ou ser-se condenado a nascer no Corvo era a mesma coisa. No Inverno, o mau tempo no canal Flores-Corvo é tão mau, mas tão mau, que nem os peixes resistem. O vento, forte, pujante, que mal deixa cultivar a terra, é, ao mesmo tempo, seminal, não tivesse nascido fruto de uma noite de paixão e vendaval com uma bruxa do Corvo o Feiticeiro do vento, a quem os corvinos se dirigem em orações a pedir menos ventos e tempestades. No Corvo, não reinava outra lei que não a lei dos homens. Todos por igual, um comunismo sem teoria política, votos, ou mandatos, apenas e só por uma questão de sobrevivência. Como tal, ninguém se distinguia, em particular, de ninguém. Todos descalços, ordenham e lavram, fazem farinha e pão, matam porcos, vão à pesca, cuidam das galinhas e cumprem rituais antigos, perdidos no tempo, mas nunca esquecidos, apenas para ali abandonados. Até ao dia.
Até ao dia em que veio alguém de fora. Um estrangeiro que visitou a ilha. Estranho, percorrer uma pessoa meio mundo para chegar ao Corvo, quando meio mundo do Corvo só queria dele fugir. Mesmo apesar da presença deste alienígena, nada mudou. As portas continuaram por trancar, e as porcas continuaram a ser mortas e partilhadas. Até que o estrangeiro se foi embora.

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