Um dia, a pedido de um amigo, que estava a estrear um documentário, escrevi um texto sobre música, que era o tema proposto. Falei sobre os afetos e amizades que me conduziram às minhas grandes descobertas musicais. Uma destas personagens foi, obviamente, o meu Pai, que denominei de besta. Na altura, não fui muito bem compreendido, mas não me preocupei muito. Sabia que o tempo estava do meu lado.  The Rolling Stones, Time is on my side.
Bem sei que o que agora direi se reveste de alguma ambiguidade, porque sei muito bem o que escrevi e o sentido que dei às palavras. Aliás, em bom nome da verdade, só agora percebo que quando o denominei de besta, havia muito mais em mim de meu Pai do que eu poderia imaginar. Assim, besta só pode vir, também, de grandeza, fortaleza, magnitude.
Este homem fez muitas coisas na vida, algumas delas muito bem sucedidas, mas a magnitude de uma delas prova, de forma arrebatadora, a sua bestialidade.
Suponho que estaríamos no ano 1991, quando vi entrar na casa de meu Pai, ali na Cecília Meireles, alguns artistas. Nomeadamente o Aníbal Raposo, o Luis Alberto Bettencourt, e o Michael Hudec. Estavam a congeminar uma coisa. Essa coisa viria a chamar-se 7 anos de música.
7 anos de música, é uma complicação de músicas populares dos Açores, ou com inspiração ou arranjos ligados à cultura musical dos Açores. Até hoje será uma das melhores compilações de música editada nos Açores, pela Disrego em 1992, com assinalável sucesso.
Nesta altura já vivia em Lisboa, e recordo-me perfeitamente de ir ali aos Restauradores, ou lá perto, apanhar os selos da Direcção de Espectáculos para várias edições, de discos ou mesmo de VHS. Orgulho-me muito de ter feito parte do processo de edição de música e vídeos dos Açores. Mas ainda tenho mais orgulho do meu Pai, que entre muitas outras coisas, suponho que mais importantes para ele, conseguiu coordenar estas fantásticos projectos.
Bestial!

P.S – Grande bem haja ao utilizar do Youtube “inspirar7me” que fez o upload de todo o disco, com o alinhamento correcto.