Luis Rego

Aquele tipo que escreve umas coisas

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Coimbra, 5 de Abril, 1943.

“A imaginação nutre-se do real. Não se inventa nada. A Mariana do Amor de Perdição, a maior figura de Camilo, era possivelmente vizinha do grande homem. Mas o génio criador distendeu-lhe as virtudes naturais. E o doméstico e apagado caso particular passou a irradiar uma luz universal.

Os problemas morais que se levantam em arte só podem ter soluções negativas. É impossível impor a um artista qualquer coisa de comparável ao segredo profissional.

De resto, em coisas de uma natureza tão subtil, seria bom precisar que espécie de atentado há quando um artista parte da aparência temporal do modelo para evidência intemporal da criação. Verificar de que maneira ecoam na sinfonia elaborada os chocalhos do rebanho, é como pólen que a brisa tira de uma flor. Parece um roubo, e vai ser um milagre.”

De Miguel Torga, a quem prefiro chamar carinhosamente Adolfo, seu nome próprio. Um dos textos mais esclarecido e, ao mesmo tempo, poético que já li sobre criatividade. A realidade pura e dura embrulhada com um laço em cetim. Obrigado Adolfo.

 

 

A Rainha do Corvo

De todas as ilhas dos Açores que são especiais, o Corvo é a mais especial. Corvo negro, furtivo, sombrio, o símbolo da cidade de Lisboa. Mas por simpatia, por galhardia corvina, só. Porque Corvo, Corvo há só um. O CORVO! E nada está melhor para o Corvo do que o Corvo. O Corvo podia ser um sanatório ou uma prisão. Bom, antigamente, nascer na prisão ou ser-se condenado a nascer no Corvo era a mesma coisa. No Inverno, o mau tempo no canal Flores-Corvo é tão mau, mas tão mau, que nem os peixes resistem. O vento, forte, pujante, que mal deixa cultivar a terra, é, ao mesmo tempo, seminal, não tivesse nascido fruto de uma noite de paixão e vendaval com uma bruxa do Corvo o Feiticeiro do vento, a quem os corvinos se dirigem em orações a pedir menos ventos e tempestades. No Corvo, não reinava outra lei que não a lei dos homens. Todos por igual, um comunismo sem teoria política, votos, ou mandatos, apenas e só por uma questão de sobrevivência. Como tal, ninguém se distinguia, em particular, de ninguém. Todos descalços, ordenham e lavram, fazem farinha e pão, matam porcos, vão à pesca, cuidam das galinhas e cumprem rituais antigos, perdidos no tempo, mas nunca esquecidos, apenas para ali abandonados. Até ao dia.
Até ao dia em que veio alguém de fora. Um estrangeiro que visitou a ilha. Estranho, percorrer uma pessoa meio mundo para chegar ao Corvo, quando meio mundo do Corvo só queria dele fugir. Mesmo apesar da presença deste alienígena, nada mudou. As portas continuaram por trancar, e as porcas continuaram a ser mortas e partilhadas. Até que o estrangeiro se foi embora.

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